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O frio subiu pela espinha do repórter quando o tradutor leu o decreto no jornal oficial do governo afegão, direcionado aos cidadãos: "Se você vir um estrangeiro no Afeganistão, mate-o". Seriam apenas linhas curiosas se o jipe em que o jornalista se encontrava não estivesse a caminho do Afeganistão.
Um assassinato por ali não causaria espanto. Era dia 29 de setembro de 2001 e no mundo inteiro só se falava dos atentados nos Estados Unidos e das conseqüências que o Oriente Médio sofreria.
O perigo, porém, não foi suficiente para desviar a rota de Lourival Sant'Anna. No dia seguinte ao anúncio, lá estava ele, em solo afegão, frente-a-frente com líderes taleban. Não teve tempo para calcular riscos e fez uma entrevista que ganhou enorme destaque em O Estado de S.Paulo.
Fronteira Oito dias depois do atentado às Torres Gêmeas e ao Pentágono, Lourival Sant'Anna, repórter especial do Estadão, desembarcou no Paquistão. Entre o envio de uma matéria e de outra, fez tentativas de entrar no Afeganistão. Nada poderia ser mais pitoresco do que conversar com integrantes que, na visão ocidental, eram o lado mau da história.
Acontece que as fronteiras estavam fechadas tanto pelos paquistaneses quanto pelos afegãos. A estes, não interessava deixar ninguém sair do país. Queriam que todos ficassem para defender a nação.
Morte aos estrangeiros Após dez dias de peregrinação pelo Paquistão num período especialmente rico em pautas, Lourival chegou a Shaman, outro ponto da fronteira entre com o Afeganistão. Era manhã de 29 de setembro de 2001. Em Shaman, o jornalista foi tratado como celebridade. Os habitantes sempre ofertam suas casas para hospedar o visitante. A honra cabe ao homem mais rico entre os candidatos a cicerone.
Antes de sair rumo à fronteira, caiu às mãos do jornalista um jornal do dia. Era uma publicação afegã precária, sem fotos (que eram proibidas), com o decreto que ordenava os cidadãos a matar qualquer estrangeiro que aparecesse por lá. "Não deu tempo de pensar no medo. Só pensei na entrevista com os talebans. Tinha a chance de conversar com eles".
Comerciantes O tradutor Iqbal Afridi conduziu o jornalista de jipe até a fronteira. Do lado de lá, a cidade de Spin Boldak, na província de Kandahar. Iqbal era sobrinho do ex-governador de Kandahar e tinha amizade com famílias da região. Foi assim que conseguiu reunir três comerciantes de etnia pashtun. Eles tinham passe livre na fronteira.
O jipe parou perto da fronteira. Além da corda que marcava os limites de um país e de outro, Lourival só avistou homens que faziam a guarda. O restante da paisagem denunciava as conseqüências dos mais de 20 anos de guerras ininterruptas na região.
O líder dos homens que guardavam o país em que provavelmente se escondia Osama bin Laden fez uma pergunta a Lourival. O idioma indecifrável fez surgir um ponto de interrogação no rosto do repórter. Resultado: acesso negado.
Limpo demais Na tarde do mesmo dia 29, lá estavam novamente os três comerciantes, o tradutor e o repórter prontos para uma nova tentativa de passar a fronteira. O guardião do Afeganistão era o mesmo. Olhou bem para Lourival e se dirigiu aos outros homens.
— Por que vocês ficam insistindo em trazer esse punjabi aqui?
Punjabi era uma outra etnia da região. "Eu estava muito limpo, de banho tomado, e eles [afegãos] são muito mais sujos".
Bazar Eram 10h do dia 30. A fronteira era a mesma. Iqbal entrou em um carro acompanhado do mesmo homem que na véspera negara acesso por duas vezes. Conversaram alguns minutos dentro do carro estacionado. Do jipe, Lourival acompanhava atentamente. Em poucos minutos, o tradutor voltou satisfeito: a passagem fora finalmente liberada.
O jipe percorreu poucos quilômetros para chegar a Spin Boldak. A cidade é o bazar do que sobrou do Afeganistão. Um bazar improvisado que vendia, em tendas, peças de helicópteros, armas, tanques de guerra e todo ferrolho que pudesse ser transformados em pedaços menores.
Os clientes eram mercenários, membros de milícias, guerrilhas e quem mais estivesse precisando de uma peça de um desmanche bélico. "Eles derrubavam, a tiros, até transformadores no alto dos postes para vender as peças. Atiravam nos postes como se estivessem caçando".
Alguns comércios funcionavam dentro de contêineres. "Quando chega um caminhão, as pessoas de Spin Boldak não deixam o contêiner voltar. Eles transformam o contêiner em loja". Da precariedade, vem a engenhosidade. "Eles até melhoraram o AK-47. Colocaram uma peça de ferro que faz com que, quando a arma é destravada, a rajada seja mais rápida". Tudo a custo muito baixo. Para se ter uma idéia da fragilidade da moeda local, um pão custava menos de um centavo de dólar.
Entrevista Depois de passar pelo bazar de Spin Boldak, um jipe estacionou na frente de uma construção feita de argila, com paredes pintadas de branco. Os três comerciantes desceram e entraram no que parecia ser um barracão de alvenaria. Lourival aguardava com ansiedade. "É uma situação incômoda. Eu queria sensibilizá-los com a minha proposta. Era uma oportunidade de os taleban mostrarem o que eles são. O mundo inteiro estava tendo uma idéia deles e era preciso ouvi-los. Mas eu não fazia idéia de como poderiam reagir".
Os comerciantes vieram até a porta e chamaram Iqbal. Em poucos minutos, os taleban tinham concordado em dar a entrevista.
Quase uma hora Dentro do barracão de argila, a temperatura era agradável. Inicialmente, eram três os homens do taleban na conversa. O líder civil e o líder militar falavam. Um terceiro ficava calado. As perguntas passavam pelo tradutor. De vez em quando, os taleban começavam a falar entre si. No meio da conversa, que durou mais de 40 minutos, chegou um quarto homem, que tinha sido governador de Kandahar. Depois, entregou o governo aos taleban.
Afinal, como foi? Encerrada a entrevista, Loruvial voltava para o Paquistão para redigir a matéria e a entrevista pingue-pongue contando quem são e como pensam os taleban. A matéria foi publicada num domingo, no início de outubro de 2001. Teve grande repercussão. Em fevereiro de 2002, a aventura ocupou as páginas do livro-reportagem "Viagem ao Mundo dos Taleban".
No caminho de volta a Shaman, o jornalista tratou de tirar duas dúvidas com Iqbal. Ainda era uma incógnita a permissão dada pelo homem da fronteira.
— Iqbal, o que você falou para aquele cara?
O tradutor ficou um pouco envergonhado, mas respondeu.
— É uma coisa íntima minha. Mas tenho um tio que é general do taleban. Não queria usar isso. Mas foi o único jeito.
O tradutor foi uma figura de fundamental importância para viabilizar o mergulho ao mundo dos taleban. A outra curiosidade era pelos diálogos entre os taleban durante a entrevista. O que diziam aqueles homens? "O Iqbal me contou que um deles, mais radical, falava: 'vamos parar essa entrevista! Esse cristão não pode estar aqui'. O outro retrucava: 'vamos continuar. Ele é nosso hóspede'".
Seja taleban Hoje, Lourival Sant'Anna se diverte com um convite que os taleban lhe fizeram no final da entrevista. Um dos líderes o convidou para ficar. Não para ficar por uma noite, mas para ficar para sempre: tornar-se um taleban.
— Você é um jovem muito brilhante. Nós temos o caso de um australiano que veio e ficou - argumentou um dos líderes. Àquela altura, o mundo ainda não soubera da conversão de um jovem americano, então com 22 anos, que chocou os Estados Unidos.
"Respondi a eles: 'adorei a proposta, mas não vai rolar. Tenho de voltar e escrever a matéria'", diverte-se o repórter ao contar a história. "As pessoas por lá são muito vira-casaca. Muda o regime e as pessoas trocam de chapéu. Eles dizem que você não pode comprar um afegão, mas pode alugar um". |