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O fim de um jornal melhor que os seus donos, por Thales Guaracy

Thales Guaracy (*)

A imprensa anda de luto pela Gazeta Mercantil, o jornal que vem estertorando nas mãos da CBM, Companhia Brasileira de Multimídia, de Nelson Tanure. Seu fim não se dá pela crise da imprensa, que vai abalando grandes jornais do mundo, a começar pelo New York Times, nos Estados Unidos, com a prevalência crescente da internet sobre a mídia impressa. É apenas um caso de má administração e incompreensão da natureza de um negócio. Com a Gazeta, vai se encerrando parte da história do jornalismo brasileiro, mas ela ainda nos dá uma lição, sua última contribuição para o futuro.

Comecei a trabalhar na Gazeta em 1986, recém-saído da faculdade, depois de rápido estágio na TV Bandeirantes. Instalada num edifício da rua Major Quedinho, a Gazeta era um jornal venerável, considerado leitura obrigatória no mundo profissional. Sua circulação era menor que a da Folha de S. Paulo e de O Estado de S. Paulo, porém seu público era mais qualificado.

Possuía também um braço na TV, o programa Crítica e Autocrítica, capitaneado pelo seu diretor editorial, Roberto Muller, que ia ao ar no domingo à noite. Era uma alternativa para o público que queria ver uma conversa mais séria, ainda que às vezes meio sonolenta, em lugar das mesas redondas de futebol.

Na redação do jornal, havia uma constelação de estrelas do jornalismo, a começar pelo seu diretor, Matias Molina, o secretário de redação, Alexandre Gambirasio, e um time de repórteres tratados como primas-donas: Celso Pinto, José Casado, Getúlio Bittencourt, entre outros - todos premiados e com vasta folha de serviços prestados ao jornalismo brasileiro.

A Gazeta era não apenas um grande jornal de negócios, como uma escola de jornalismo. Isso incluía princípios como a imparcialidade e a honestidade absolutas; a obsessão pela informação correta, segundo elemento essencial para a credibilidade; a busca incansável pela notícia exclusiva, que fazia a diferença.

A disputa aberta e estimulada entre os repórteres pelo espaço da primeira página era uma forma de garantir a perseguição permanente pela qualidade, num mercado em que ainda não havia concorrentes importantes. A Gazeta valorizava o jornalista, que assinava todas as suas reportagens e era tratado como patrimônio da casa, a própria essência do negócio.

Parecia um negócio inexpugnável, e teria sido, não fossem os seus proprietários: a familia Levy, cujo patrono, o deputado federal Herbert Levy, deixara a administração do jornal ao filho Luiz Fernando para cuidar de suas atividades políticas. A gestão fez da Gazeta Mercantil o único órgão de imprensa em que trabalhei a atrasar salário. Porto seguro para a publicidade de bancos e outras empresas que tinham no jornal um veículo perfeito, o mal uso dos recursos fazia com que volta e meia a empresa entrasse em dificuldades.

Por sorte, naquela época, havia um grupo de empresários que, nos momentos mais difíceis, socorriam o jornal. Sabiam que ele era melhor que os seus donos. Agiam não por amizade, compromisso, ou mesmo medo, mas pelo entendimento de que o serviço prestado pela Gazeta era importante e insubstituível para a comunidade de negócios e o país.

Assim, o jornal prosseguiu não por causa de seus criadores, mas apesar deles; pertencia não a uma família, mas à sociedade. Sempre foi respeitado muito graças ao espírito de corpo dos jornalistas que nele trabalhavam, enquanto seus proprietários eram tratados com reserva.

Lembro de certa tarde em que eu, ainda um repórter principiante, fui fazer uma entrevista com o então diretor do Banco Central, Wadico Bucchi, em São Paulo. Encontrei Luiz Fernando Levy já na ante-sala, à espera de uma audiência. Levy continuou esperando, enquanto eu entrei na sua frente, atendido primeiro.

Para Bucchi, o repórter principiante merecia preferência em relação ao dono do próprio jornal onde trabalhava. Ele sabia que eu estava ali em busca de notícia, fazendo meu serviço para uma publicação de prestígio. Levy estava lá para pedir alguma coisa.

Quando o mercado se torna mais difícil, uma má gestão fica mais evidente e faz a diferença, sempre para pior. Surgiu o Valor Econômico, um concorrente que tomou da Gazeta boa parte de seu principal ativo: os jornalistas. A empresa mergulhou em dívidas e mesmo os seus mais antigos defensores desistiram de salvá-la. Acossado pelos credores, Levy entregou o título a Nelson Tanure, empresário do ramo de transportes, que resolveu investir em comunicação e cobriu-lhe dívidas.

Tanure não tem a mesma familiaridade com as qualidades que fizeram da Gazeta um grande veículo e poderiam recuperá-la. E anunciou que fecharia o jornal por conta da cobrança na Justiça de dívidas trabalhistas anteriores à sua gestão e que, segundo explicou no próprio jornal, não lhe dizem respeito.

Há hoje uma onda de empresários que arriscam tornar-se editores sem compreender a dependência desse negócio de sua matéria-prima essencial – gente. A Gazeta teve seus quadros reduzidos, os salários aviltados. A qualidade do jornal era até miraculosa, dadas as condições de trabalho.

O que assusta hoje na imprensa não é a mudança da mídia impressa para a digital. A verdadeira ameaça ao negócio é a entrada de gente com dinheiro e ousadia, mas sem conhecimento do riscado – sobretudo, da importância da separação entre Igreja e Estado. Para mercadores vindos de outras áreas, é difícil aceitar que não se barganha conteúdo jornalístico por dinheiro, e que a credibilidade, que exige o sacrifício do ganho fácil, é a fonte do sucesso duradouro nesse tipo de negócio.

A Gazeta virará agora uma embrulhada jurídica para que se saiba quem pagará as contas, se Levy ou se Tanure – um tipo de disputa à qual ambos, por sinal, estão habituados. Esse, porém, não é o verdadeiro fim da história. Jornal que sempre analisou em suas reportagens as causas do sucesso e do fracasso empresarial, a Gazeta fez de sua própria trajetória uma parábola do assunto que explorava.

Em sua agonia, a Gazeta deixa como ensinamento o que é capaz de levantar e também derrubar um negócio de comunicação, não importa qual seja sua plataforma – o papel, a TV ou o mundo virtual. E, nesses tempos tão cheio de dúvidas sobre o futuro do negócio da informação, reafirma a convicção de que, enquanto os bons princípios do jornalismo forem praticados, sempre haverá uma imprensa livre e economicamente forte para proteger a sua e a nossa liberdade.

(*) Jornalista




29/5/2009
 
Juliane Morais Istchuk [16/07/2009 - 08:10]

Tantas conquistas foram feitas pelo homem (hj16/07= a chegada a Lua..) e o mesmo teima em não aproveitar os recursos que possui para mostrar sua força, perante seus semelhantes. Realmente, um Jornal tão importante a nosso país tendo que acabar, devido a incompetencia, ou melhor, novamente, devido a má administração desse veículo de comunicação, que outrora representou e representará, sempre o que o Jornalismo tem como objetivo a mostrar: a informação de forma concreta e visando a neutralidade. Posso parecer ousada, mas a experiencia e o conhecimento na carreira poderiam ter salvo essa entidade que foi movida pela ganancia de alguem que nada conhecia da profissão.
Enfim Thales, suas palavras expressam exatamente o que a população pensa com relação a queda da GZM.
T+...
Istchuk
 
 
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Gamaliel Inácio [01/06/2009 - 00:36]
(Freelancer)


Parabéns, Thales, pela lucidez e pela competência com que trata de um tema tão propenso à passionalidade, principalmente para quem se encontra no olho do furacão (desculpe o lugar-comum). Você traça com propriedade, em seu artigo, a trajetória da GZM desde 1986, ano em que você deu início, lá, à sua experiência profissional. Você é a prova de que a GZM foi uma escola do bom jornalismo, condição que veio perdendo dácada de 90 adentro até chegar a esse pálido espectro do que um dia fora. Derrotada pela incompetência administrativa, recebeu sobre seu corpo inerte a última pá de cal de aventureiros que não sabiam diferençar um jornal de uma pastelaria. O objetivo, à guisa de urubus, era tirar o máximo proveito financeiro possível dos restos mortais da publicação. Um dos melhores ambientes jornalísticos para se trabalhar no Brasil tinha se transformado, nos últimos tempos, na antessala do inferno, à frente Costeletas e Dangelicais. Lobos em peles de cordeiros. Cumpriram sua "missão".
 
 
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Anderson Gurgel Campos [31/05/2009 - 20:46]
(Diretor-UNISA - Universidade Santo Amaro - SP)


Thales, belas palavras para uma história muito triste. Comecei na Gazeta também e de lá saí em 2000 para o projeto da Forbes Brasil. Vejo com tristeza o fim de dois lugares que me ajudaram muito na formação que me orgulho de ter conseguido.
 
 
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Eloyza Guardia [30/05/2009 - 20:21]
(Profissional Contratado)


Thales
Concordo com o Moreira:texto perfeito,digno do que foi a GZM.
Como jornalista,guardo com orgulho copia de um artigo que fiz como colaboradora e que ganhou espaço na primera página.
Como assessora de imprensa, emplacar pautas na GZM era algo primordial.(desde que o tema merecesse o espaço,claro).
Além dos nomes citados,quero lembrar alguns que trabalharam no Rio,como Paulo Totti e Heloisa Magalhaes,grandes profissionais e grandes amigos.

A decadencia e morte de alguns de nossos grandes jornais nunca foram consequencia de crises financeiras, mas da incompetencia das "famílias" que puseram no comando herdeiros que nunca se prepararam para levar o negócio adiante.,como o Jornal do Brasil, onde trabalhei por anos.

 
 
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Thales Guaracy Ferreira [30/05/2009 - 19:06]
(Freelancer)


Deixa só eu aproveitar para agradecer as palavras lisonjeiras, nem estava esperando qualquer comentário aqui, era só um pequeno desabafo. Estou escrevendo mais sobre os dilemas da imprensa no meu blog, quem se interessar pode passar por lá, é no www.thalesguaracy.blogspot.com, ou www.thalesguaracy.com.br. Um abraço a todos,
 
 
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Thales Guaracy Ferreira [30/05/2009 - 19:02]
(Freelancer)


Olá Alfredo, "entender do riscado" aí é no sentido de "entender do negócio", não tem nada a ver com risco. Mas estou de acordo com vc, nem todos os aliens são ruins. O Frias, por exemplo, era granjeiro e fez um dos melhores jornais do país. Mas ele respeitou os princípios do jornalismo. Não por acaso foi bem sucedido. Abs
 
 
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Alfredo Sternheim [30/05/2009 - 16:04]
(Freelancer)


Thales, o artigo é muito elegante, bonito, mas erra quando afirma que " A verdadeira ameaça ao negócio é a entrada de gente com dinheiro e ousadia, mas sem conhecimento do riscado." Não se trata de conhecer o risco, mas de ter ética. Já trabalhei em revistas cujos donos não conheciam nada de imprensa e, muitos anos depois, vendeu a revista mas honrou os pagamentos, jamais deixou funcionário e colaborador na mão. Só agora perceberam que Tanure não entende do riscado porque é um empresário dos transportes? Não, ele podia ser empresário de qualquer área e em qualquer área, alguém com um mínimo de boa educação sabe que, quando se contrata os serviços de alguém (redator, faxineira, etc), este alguém tem que ser pago. Não é o que ocorreu na Bloch e agora na editora Peixes, cujas dívidas surgiram em 2008 na gestão Tanure. Não podemos ignorar a falta de ética na imprensa (caso do jornalista Pimenta que promoveu a amada em detrimento de outros mais qualificados). E os superiores eram do ramo
 
 
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Nelson Carrer Jr. [30/05/2009 - 12:51]
(Freelancer)


Thales, o título do seu artigo já diz tudo. Tive o prazer de fazer parte do time da Gazeta nos bons tempos (entrei em 87). O consolo é que muita gente que aprendeu o ofício com Molina, Angela e tantos outros está aí, brilhando em tantos outros veículos que souberam aproveitar e valorizar os talentos.
 
 
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Silvia Mascella [30/05/2009 - 10:25]
(Freelancer)


Thales, parabéns pelo texto. Como disse o colega Marcelo Moreira, fazia tempo que não líamos aqui algo tão claro e objetivo.
Também tive oportunidade de ser colaboradora da Gazeta aqui em São Paulo e lembro-me bem do rigor na apuração que me era exigido, coisa só comparável a uns poucos (poucos mesmo!) veículos que temos no Brasil.
A questão que você levanta sobre os empresários que querem ser editores e lá estão pelo 'negócio' da informação é emblemática e um dos problemas que nos levou à questionar o diploma de jornalismo e a 'imparcialidade' possível nestes tempos. Tudo muito triste e contraproducente.
E já já vem alguém que nunca soube a diferença entre artigo e matéria, defender o trabalho dos que antes eram nossas fontes, como reportadores da notícia. Enfim, estou divagando...
Dos tempos de VEJA você deve se lembrar que um importante Editor costumava dizer que preferia que todos os seus repórteres fossem engenheiros. Talvez ele ainda consiga isso.
 
 
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Marcelo Moreira* [29/05/2009 - 18:16]
(Editor-BLOG ADVOGADO DE DEFESA - PORTAL ESTADÃO.COM.BR - SP)


Fazia tempo que não lia algo realmente surpreendente e de alta qualidade neste espaço. Se eu precisar resumir a história da Gazata Mercantil, ou usar um epitáfio para o diário econômico, este texto é perfeito e completo. Só lendo algo como isso para sentir orgulho de ter trabalhado na GZM, apesar dos levys e tanures.
 
 
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