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O jornalista e professor de Tecnologia em Webdesign, Frederick van Amstel, já conversou conosco em agosto de 2003 sobre a parte gráfica dos jornais online. Um dos principais nomes da usabilidade no país, van Amstel, que edita o site Usabilidoido - grande referência em português sobre o assunto -, fala agora sobre o que parece ser uma tendência entre layouts de portais de informação: desenhos de páginas baseados na resolução de 1024x768 pixels.
Em um bate-papo textual via Google Talk, o curitibano de 23 anos tirou minhas dúvidas sobre a questão e me deu não só dois centavos, mas mil, apontando que 1024 pixels não é necessariamente sinônimo de vanguarda.
Jornalismo Online - São quase três anos desde a nossa primeira conversa para o Comunique-se, não é isso? Acho que foi em agosto de 2003. Como estão seus projetos atualmente? O que está aprontando? :-)
Fred - Naquela época, eu nem tinha me formado ainda em Jornalismo. Agora já estou fazendo mestrado.
Jornalismo Online - Que bacana! É mestrado em quê?
Fred - Mestrado em Tecnologia, na UTFPR. Estou pesquisando Design de Interação, um assunto que tem tudo a ver com Comunicação. Descobri um nicho que estava fazendo falta no ramo de tecnologia. O papel de mediação.
Jornalismo Online - Seria algo entre conteúdo e tecnologia?
Fred - Exatamente. Hoje vivemos rodeados de uma miríade de artefatos tecnológicos, cada um com uma função, mas, mais do que isso, cada um com um significado, uma mensagem particular que diz respeito a nossa própria vida. Os artefatos conversam conosco e nós conversamos através deles. Interação entre pessoas como um beijo e abraço, que só aconteciam face-a-face, agora acontecem a quilômetros de distância, através de aplicações sociais. O problema é que o pessoal que cria essa tecnologia não está consciente disso e das implicações que isso tem para seu trabalho.
Jornalismo Online - Uma cultura que está sendo cada vez mais abraçada pelas pessoas e cada vez mais explorada pelos anúncios das operadoras de telefonia.
Fred - É aí que entra o papel do comunicador, ou melhor, comunicólogo. De mostrar como a tecnologia está mudando a forma como as pessoas interagem entre si e como é possível permitir que novas interações aconteçam.
Jornalismo Online - Papel bem interessante, diga-se de passagem. Antes, não faz muito tempo, o comunicólogo fazia uma mera ponte, apresentando os usuários às tecnologias. Agora, parece que a coisa se aprofundou mais.
Fred - O comunicólogo precisa pousar a visão crítica sobre a nova mídia, da mesma forma que faz com a mídia tradicional há décadas.
Jornalismo Online - E o Usabilidoido, como vai? Planos para o site? Fora isso, tem planos pra lançar alguma obra e ficar mais famoso? ;-)
Fred - O Usabilidoido vai de vento em popa, além de ter me ajudado a entrar no Mestrado, a captar clientes e fazer bons contatos profissionais, agora a renda vinda dos anúncios do Google já representa uma parte considerável da minha renda pessoal. O Usabilidoido é uma espécie de rascunho público de um livro que estou escrevendo sobre Design de Interação, sem previsão de data de lançamento.
Jornalismo Online – Opa! Boa notícia (risos). Quando tiver quase lá me dá um toque. Mas é o seguinte... Decidi te chamar para conversar sobre algo que está se tornando tendência, a tal da largura de sites baseada em resoluções de 1024x768 pixels. Preciso conhecer os possíveis prós e contras do ponto de vista de alguém especializado em interfaces e layouts. O diário espanhol El Mundo lançou há cerca de duas semanas seu novo layout e frisou a nova largura como um dos pontos principais. O New York Times fez o mesmo esse ano. Aqui no Brasil, temos a Folha como um jornal que apostou também nesse layout. O que você acha disso?
Fred - Se grandes players estão mudando a resolução é porque possuem um bom motivo para fazê-lo, como por exemplo, estatísticas que sustentem que a grande maioria dos seus leitores já está usando a resolução escolhida. Entretanto, o que me chama atenção não é o tamanho da tela que estão usando, mas o que estão colocando dentro dessa tela. Se os portais passam a exigir maior resolução do usuário, e obrigam-no a comprar um monitor maior ou trabalhar com letras menores, eles tem que oferecer um bom benefício por isso. Infelizmente, ao invés de aproveitar o aumento de espaço para diminuir a densidade informacional, ou seja, espalhar e agrupar melhor as informações, a maioria dos portais que adotaram a nova resolução estão aumentando ainda mais a densidade informacional de suas páginas iniciais.
Jornalismo Online – Você disse outro dia por email que realmente é uma tendência, mas que estão aproveitando para entupir mais ainda de informação a home, em vez de dar um respiro para o leitor. Como você acha que um espaço maior pode ser mais bem aproveitado?
Fred - O espaço pode ser mais bem aproveitado se ele não for usado desnecessariamente. Dessa forma, o leitor terá apenas as informações mais relevantes disponíveis. Já trabalhei no design de um portal de notícias que insistia em colocar tudo o que produzia na home, com grandes chamadas e fotos. O que acontecia é que as pessoas não passavam da home, ficavam contentes só vendo aquele "geralzão". Interessante é que o público eram jornalistas. E eles faziam isso provavelmente porque tem de acompanhar vários portais diariamente. Então quanto menos clicar, menos ler, quanto mais resumido estiver, melhor.
Hoje, as pessoas normais estão ficando assim também, sentem cada vez mais pressão para acompanhar diferentes fontes. Quando os portais perceberem que o que cativa o leitor não é quantidade, mas sim qualidade, então teremos novamente um bom aproveitamento das páginas iniciais.
Jornalismo Online – A CNN.com, que é um veículo que abraça várias formas de transmissão de informação (weblogs, RSS, podcasts, vídeos, além do noticiário convencional) costuma destacar todos eles na home. É esse tipo de ação que você acha que pode sufocar o leitor ou é possível dar um bom destaque a cada um desses formatos sem que tudo se torne uma coisa desagradável?
Fred - Eles partem do princípio de que a home deve dar uma visão geral dos serviços que o portal oferece, mas nem todos os usuários esperam isso da home de um portal de notícias. As pessoas normais, que demoram a aderir a novas tecnologias como RSS, podcasts etc., esperam da home um porto seguro, um lugar familiar onde elas possam voltar sempre e ler uma notícia. As novas tecnologias devem ser apresentadas a essas pessoas também, mas com cautela. No caso da CNN, creio que eles estejam empurrando demais e isso pode incomodar os mais conservadores.
Jornalismo Online – Realmente, é impressionante a naturalidade com que inúmeros blogs e sites já tratam assuntos como podcasting e RSS. Mas, por exemplo, eu e você sabemos que RSS veio para adicionar, para melhorar nossas vidas. Essa espécie de pressão exercida por sites como a CNN.com não poderia ser benéfica de alguma forma?
Fred - É benéfica para a CNN, que diversifica sua mídia e cria relacionamento mais duradouro com o leitor (RSS é uma espécie de assinatura). Para o leitor, esses recursos são úteis, mas tem um custo. É preciso primeiro aprender como lidar com um programa leitor de RSS ou um MP3 player. O problema é que, se ele não estiver interessado nisso, ele não tem como se livrar deles. Isso é um paradoxo, já que tais tecnologias estão entrando no mercado com o argumento de que vieram para dar mais liberdade de escolha.
Jornalismo Online - Voltando às larguras, aqui no Brasil, existem muitos veículos que continuam com a resolução de 800x600 pixels. Muitos jornais online oriundos de impressos (como O Globo, O Dia, o Estadão, o Zero Hora) e demais sites de informação como Blue Bus, Comunique-se e Webinsider ainda apostam na resolução menor. Acha que o cenário mudará? Qual seu parecer sobre a quantidade de grandes sites nacionais que não redesenhou para 1024?
Fred - Não se pode dizer que sites que usam 1024 estão na vanguarda e os que ainda usam 640 estão obsoletos. Essa é uma decisão que depende do público-alvo do website (se eles possuem o aparato necessário para suportar a resolução maior) e também da própria linha editorial do jornal. O Blue Bus, por exemplo, perderia a graça se perdesse a simplicidade de sua página inicial. Entretanto, os portais que preferem socar um monte de informação numa lingüiça de 800 pixels de largura estão perdendo a oportunidade de deixar suas páginas iniciais mais leves. Como a maioria dos portais prefere esta última estratégia, então a tendência é vermos cada vez mais sites exigindo resolução de 1024px.
Jornalismo Online - A Folha é um exemplo de diário virtual brasileiro que apostou na largura baseada na resolução de 1024. O que lhe parece a homepage desse jornal?
Fred - A Folha sempre esteve entre meus jornais favoritos, tanto do ponto de vista do conteúdo, quanto do projeto gráfico. A mudança para 1024 permitiu que ela desse mais áreas de respiro em branco em torno das notícias e reduzisse a altura da página inicial, diminuindo a necessidade de rolagem. Entretanto, a presença de seções miscelânicas no pé da página indica que o trabalho não está finalizado, como sempre. A fonte escolhida é suave e permite a leitura rápida. Não há elementos tentando distrair minha atenção do texto a não ser que eu queira ver outra coisa diferente.
Jornalismo Online - Para rever e costurar, em poucas linhas (ou em muitas, se preferir), quais os prós e contras hoje da largura de 1024?
Fred - Acho que não dá para listar prós e contras sobre a resolução 1024 para todos os sites, pois cada caso é um caso. Entretanto, os designers devem fazer as seguintes perguntas antes de mudar:
- Nossos leitores querem maior densidade de informação na home? - Nossos leitores possuem o equipamento mínimo necessário para a resolução de 1024, ou seja, um monitor de 17 polegadas? - Quais elementos e seções de nossa página inicial atual que os leitores já estão acostumados (e apegados) e devem estar presentes na nova página? - Com o aumento de espaço, poderemos separar melhor conteúdo editorial de conteúdo publicitário? - Temos tanto conteúdo assim para estar constantemente atualizando os novos espaços da página inicial maior?
Jornalismo Online - Excelente. Obrigado mesmo por tirar minhas dúvidas, que certamente são as de muitos ligados ao meio online. Desejo boa sorte com o Usabilidoido e com o mestrado.
(*) Trabalha com conteúdo online desde 1996 e já passou por empresas de renome na Internet. Foi editor do AQUI!, extinta revista virtual do Cadê?, editor do canal Digital do portal StarMedia e coordenador de operações do Prêmio iBest. Realizou seminários e ministrou diversas palestras sobre jornalismo digital. Em fevereiro de 2000, criou o site Jornalistas da Web(JW), primeira publicação virtual brasileira sobre jornalismo online e cibercultura. Em 2005, criou e implantou a Biblioteca de Comunicação Digital e Cibercultura (BCCD) no campus 3 das Faculdades Integradas Hélio Alonso - FACHA, no Rio de Janeiro. Atualmente, Cavalcanti é pesquisador de mídias digitais e editor de conteúdo do JW.
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