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“Acredito que bons jornalistas ficam melhores quando possuem um diploma de direito. Ou de economia. Ou de sociologia. Acredito também em quem aprende uma segunda língua porque 60% de toda informação científica está em inglês. Acredito no diploma - mas não como borduna corporativa, para bater em quem quer entrar na profissão como colunista, por exemplo. Veja o caso do Tostão, médico, que ficaria impedido de exercer o jornalismo se passasse um diploma legal de conteúdo corporativo”. A opinião é de Adherbal Fortes de Sá Jr, diretor-geral da TV Bandeirantes em Curitiba (PR). Ele participou do “Papo na Redação” desta quinta-feira (27/07).
Para o entrevistado, o maior desafio dos profissionais que acabam de entrar no mercado é cumprir o juramento que fizeram ao deixar a faculdade e “não deixar de escrever o que é necessário ser escrito para informar corretamente o leitor. Em outras palavras: o jornalista precisa deixar a faculdade disposto a lutar todo o dia contra as censuras - a do governo, a da empresa e a auto-censura”.
Leia na íntegra o “Papo na Redação” com Adherbal Fortes de Sá Jr:
[15:08:26] - Alessandra Matarazzo (Freelancer) pergunta para Adherbal Fortes de Sá Jr: Boa tarde, Adherbal. O PL que altera as regras para as funções jornalísticas foi vetado ontem pelo presidente Lula. Você era contra ou a favor dele e por quê?
Adherbal Fortes de Sá Jr responde: Contra. Não acredito muito em regulamentação da profissão de jornalista. Estamos vivendo uma situação complicada: as faculdades não oferecem conteúdo suficiente - o forte delas são as matérias adjetivas, lead e sub-lead, etc. Então ficamos com um grupo muito grande de pessoas que sabem a forma e desconhecem o conteúdo. Do lado de fora do jornal temos advogados (sou formado em direito), médicos, economistas que podem contribuir para fazer um jornal melhor. Por que não abrir a porta para esse pessoal?
[15:10:21] - Alessandra Matarazzo (Freelancer) pergunta para Adherbal Fortes de Sá Jr: Como é sua rotina na Band-PR? Pode nos contar um pouco do trabalho como diretor de Jornalismo?
Adherbal Fortes de Sá Jr responde: Correção: Sou - infelizmente - diretor-geral. Chego cedo e saio tarde. Trabalho dez horas por dia, assino cheques, ajudo a fechar o jornal, visito clientes.
[15:13:27] - Mayélli Carolina Viana de Liz (Repórter - Jornal Opinião) pergunta para Adherbal Fortes de Sá Jr: O senhor chegou a terminar o curso de Direito? Minha pergunta tem a ver com o seguinte: Muitos profissionais dessa área criticam os jornalistas diplomados e a regularidade do diploma. Muitos afirmam ser melhores que os jornalistas. Claro que cada um tem uma maneira de escrever, mas o senhor acredita que, para ser jornalista, basta ter diploma de advogado e não cursar jornalismo?
Adherbal Fortes de Sá Jr responde: Acredito que bons jornalistas ficam melhores quando possuem um diploma de direito. Ou de economia. Ou de sociologia. Acredito também em quem aprende uma segunda língua porque 60% de toda informação científica está em inglês. Acredito no diploma - mas não como borduna corporativa, para bater em quem quer entrar na profissão como colunista, por exemplo. Veja o caso do Tostão, médico, que ficaria impedido de exercer o jornalismo se passasse um diploma legal de conteúdo corporativo.
[15:15:16] - Maria Edith Diniz Oliveira (Freelancer) pergunta para Adherbal Fortes de Sá Jr: Olá, Adherbal. Na sua opinião, quais os principais desafios que o jovem recém-formado enfrenta ao chegar no mercado de trabalho?
Adherbal Fortes de Sá Jr responde: Cumprir o juramento que fez ao sair da faculdade - e não deixar de escrever o que é necessário ser escrito para informar corretamente o leitor. Em outras palavras: o jornalista precisa deixar a faculdade disposto a lutar todo o dia contra as censuras - a do governo, a da empresa e a auto-censura.
[15:16:03] - Diogo Recena (Empresário de comunicação) pergunta para Adherbal Fortes de Sá Jr: Por que você diz infelizmente, Adherbal? Eu imagino que estar à frente de uma emissora como a Band exige muita responsabilidade, mas você não gosta do trabalho?
Adherbal Fortes de Sá Jr responde: Porque eu gostaria de ter continuado jornalista. Ganhando como diretor-geral.
[15:18:03] - Diogo Recena (Empresário de comunicação) pergunta para Adherbal Fortes de Sá Jr: Como você define a linha editorial da TV Bandeirantes?
Adherbal Fortes de Sá Jr responde: A preocupação do jornalismo da Band é ser o mais universal possível, sem perder o foco na cidade. É uma fórmula difícil, que o Mitre carrega com galhardia todos esses anos. Gosto muito do resultado alcançado frequentemente pelo Jornal da Band e também pelo Jornal da Noite.
[15:19:26] - Claudia Segala (Outros - Comunique-se - RJ) pergunta para Adherbal Fortes de Sá Jr: Boa tarde, Adherbal. Como a Band está se preparando para a cobertura das eleições?
Adherbal Fortes de Sá Jr responde: Temos um manual, aprovado numa reunião das praças. Estamos preparados para fazer uma boa cobertura. Assusta pensar no que vem de trabalho para o departamento jurídico.
[15:19:50] - Claudia Segala (Outros - Comunique-se - RJ) pergunta para Adherbal Fortes de Sá Jr: O que achou da idéia da Globo de colocar um ônibus para rodar o país, na cobertura das eleições?
Adherbal Fortes de Sá Jr responde: Você gosta de road movie?
[15:22:07] - Mayélli Carolina Viana de Liz (Repórter - Jornal Opinião) pergunta para Adherbal Fortes de Sá Jr: Gostaria de uma opinião bem pessoal. Ao nos depararmos com plágios, falta de informação de superiores que se acham auto-suficientes (não formados e não cursando jornalismo), como devemos agir? Onde fica a ética de alguns jornais do interior do estado? E nós, meros estagiários? Lutamos pelo que acreditamos ou correremos o risco de sermos mandados embora?
Adherbal Fortes de Sá Jr responde: Plágio, como você sabe, é uma grande idéia que alguém teve primeiro. Uma vez, um competentíssimo companheiro nosso flagrou-se plagiando um texto que ele mesmo havia escrito anos antes.
[15:25:23] - Beatriz Moraes (Correspondente - Comunique-se - RJ) pergunta para Adherbal Fortes de Sá Jr: Boa tarde, Adherbal. Como está sendo a experiência de `blogar` junto com a equipe da Band? O Blog da Cidade vem repercutindo?
Adherbal Fortes de Sá Jr responde: A sensação é ingressar num outro universo. Estamos descobrindo o jornalismo do futuro? Há três semanas, em Washington, no seminário da Campaign & Elections chegou-se à conclusão espantosa de que grande parte do êxito do Partido Republicano, na eleição de Bush, deveu-se ao desempenho dos blogueiros dele. Logo em seguida, em Las Vegas, houve um congresso com a presença de quase 4 mil blogueiros. Todos os candidatos a candidato do Partido Democrata estavam lá. A exceção foi a Hilary.
[15:25:57] - Claudia Segala Outros - Comunique-se - RJ) pergunta para Adherbal Fortes de Sá Jr: Não, não gosto.
Adherbal Fortes de Sá Jr responde: Então?
[15:28:34] - Diogo Recena (Empresário de comunicação) pergunta para Adherbal Fortes de Sá Jr: Você me parece muito mais envolvido com a parte jurídica da emissora do que com o setor jornalístico. É isso mesmo?
Adherbal Fortes de Sá Jr responde: Sou diretor-geral de uma emissora local. Isso equivale mais ou menos ao velho título de gerente-geral que o pai da gente ostentava com orgulho. Só que gerente-geral cuida de tudo - inclusive da parte jurídica. Mas se você acompanhar o jornalismo de Band e o blog www.blogdacidade.com.br vai ver que estou lá também.
[15:31:17] - Beatriz Moraes (Correspondente - Comunique-se - RJ) pergunta para Adherbal Fortes de Sá Jr: Ou seja, o jurídico das empresas de comunicação vai trabalhar mais nessas eleições do que nas outras?
Adherbal Fortes de Sá Jr responde: Desconfio que sim, Bia. Sabe por quê? Porque as campanhas estão reforçando o setor jurídico delas. Há muito que questionar como você está vendo com as impugnações que aguardam julgamento do TRE e do TSE. A questão mais palpitante, acho, será descobrir de que maneira os tribunais vão julgar o que aparece sobre sites e blog. Principalmente sobre blogs, que não podem, a meu juízo, receber enquadramento como um meio de comunicação tradicional, oneway.
[15:33:47] - Beatriz Moraes (Correspondente - Comunique-se - RJ) pergunta para Adherbal Fortes de Sá Jr: Adherbal, pegando o gancho da sua resposta sobre cobertura de eleições: vem chumbo grosso pela frente? Vc acredita que os candidatos vão estar mais ouriçados este ano, procurando falhas na cobertura da imprensa, sentindo-se `prejudicados` ou coisas do gênero?
Adherbal Fortes de Sá Jr responde: Cada vez que alguém se apresenta como voluntário para atuar no departamento jurídico de uma campanha, agrega uma energia imensa. Passa a procurar em toda parte - e isso inclui os jornais, telejornais, sites e blogs, sem falar na propaganda de rua - alguma coisa para iniciar uma vitoriosa batalha no TSE. Que terminará, espera, com a cassação do adversário ou a retirada do programa por um dia ou dois. Tem gente que apelida isso de Síndrome do Tapetão.
[15:35:58] - Mayélli Carolina Viana de Liz ( Repórter - Jornal Opinião) pergunta para Adherbal Fortes de Sá Jr: Então devemos nos contentar com o silêncio? Quebrando a cabeça diariamente, gastando solas de sapato por amor a uma profissão que `viverá sendo plagiada`?
Adherbal Fortes de Sá Jr responde: Claro que não. Há gente que tem sempre a mesma idéia e é elogiada pela sua coerência. Por favor, quebre a cabeça, gaste a sola do sapato e nunca hesite em publicar o que descobriu observando o mundo.
[15:38:11] - Alessandra Matarazzo (Freelancer) pergunta para Adherbal Fortes de Sá Jr: A Internet tem uma série de vantagens, mas essa questão de plágio aumentou muito com o advento da grande rede. Você já foi vítima de um caso como esse?
Adherbal Fortes de Sá Jr responde: Já. Escrevi uma peça de teatro intitulada Cidade Sem Portas. Mais de 100 apresentações no Teatro Paiol de Curitiba. A certa altura um personagem discutia a valentia em caso de guerra e condenava o heroísmo com uma frase: "Sabe de uma coisa? Herói é um cara que não teve tempo de fugir!" Mais tarde, descobri que o Millor já tinha escrito isso.
[15:39:22] - Claudia Segala (Outros - Comunique-se - RJ) pergunta para Adherbal Fortes de Sá Jr: Então, estou aguardando sua resposta
Adherbal Fortes de Sá Jr responde: Acredito no ônibus, Claudia. Vale para mostrar o que está acontecendo no Brasil profundo - creio que é essa a intenção da Globo. E vale também como uma lição de tecnologia para todos nós.
[15:41:12] - Maria Edith Diniz Oliveira (Freelancer) pergunta para Adherbal Fortes de Sá Jr: Existe algum assunto proibido de noticiar na Band?
Adherbal Fortes de Sá Jr responde: Creio que não. Existem assuntos que o jornalismo decide tratar com cuidado. Imagino que é assim em toda parte. Lembra da briga da BBC com o governo Blair?
[15:43:33] - Alessandra Matarazzo (Freelancer) pergunta para Adherbal Fortes de Sá Jr: Aproveitando que a política está sendo abordada neste chat, não consigo ver sentido no fato de Lula estar na frente em todas as pesquisas de opinião. Depois de tantas denúncias e escândalos, o brasileiro tem medo de apostar em um outro partido?
Adherbal Fortes de Sá Jr responde: Que partido, Alessandra? Há uma penca de teóricos sustentando que no Brasil não existem partidos políticos, provavelmente porque não existe voto distrital, fidelidade partidária, lista partidária e, principalmente, trabalho de proselitismo durante a entressafra eleitoral.
[15:45:17] - Mariana Sales Lapa (Estudante) pergunta para Adherbal Fortes de Sá Jr: Adherbal, como você vê o voto nulo nessas eleições?
Adherbal Fortes de Sá Jr responde: Voto nulo ou voto em branco, Mariana (é o nome de uma das minhas filhas)? Voto nulo é quando você vota errado. Voto em branco é quando você decide não escolher um candidato. Acho o voto em branco muito importante porque também pode levar a um segundo turno.
[15:45:30] - Claudia Segala (Outros - Comunique-se - RJ) pergunta para Adherbal Fortes de Sá Jr: Vai votar em quem para presidente?
Adherbal Fortes de Sá Jr responde: Estou escolhendo.
[15:47:46] - Diogo Recena (Empresário de comunicação) pergunta para Adherbal Fortes de Sá Jr: Adherbal, conforme lembraram neste chat, a Globo planeja uma cobertura `on the road` com o intuito de procurar saber o que cada parte deseja de seus governantes. A emissora afirma que é uma idéia original. A Band tem alguma idéia de mudança nas coberturas deste ano que seja uma inovação?
Adherbal Fortes de Sá Jr responde: Nenhuma desse tipo. A Band vai inovar no formato dos debates e pretende ampliar a cobertura e o espaço de análise. Em outras palavras: vamos melhorar o que, na nossa opinião, já está bom.
[15:49:02] - Mayélli Carolina Viana de Liz (Repórter - Jornal Opinião) pergunta para Adherbal Fortes de Sá Jr: Agradeço pelas suas palavras, e confesso que estou em uma desilusão profunda com tudo isso...Ver teu chefe de redação mudar tua matéria, colocando algo `inventado` ou copiado para que torne-se mais interessante, não é fácil... Obrigada
Adherbal Fortes de Sá Jr responde: Entendo isso. Sou do tempo da ditadura do copidesque.
[15:51:56] - Diogo Recena (Empresário de comunicação) pergunta para Adherbal Fortes de Sá Jr: Adherbal, por que o `new journalism` não emplaca no Brasil? Quase todas as emissoras parecem repetir o mesmo esquema de reportagens pasteurizadas. Algum dia teremos um telejornalismo mais criativo?
Adherbal Fortes de Sá Jr responde: Porque há poucos jornalistas brasileiros dispostos a ser um Tom Wolfe ou um Capote. Uma grande matéria no estilo do new journalism toma seis meses. E quem banca você durante seis meses? Mas vale imaginar que amanhã, no ano que vem, sei lá, aparecerão veículos de comunicação com boa estrutura econômica - e teremos de novo a revista Senhor e outras experiências de alta qualidade que morreram por falta de fundos.
[15:55:36] - Diogo Recena (Empresário de comunicação) pergunta para Adherbal Fortes de Sá Jr: Adherbal: A web é o futuro. Como a Band se prepara para entrar firme na internet com a onda avassaladora da web 2.0 se aproximando?
Adherbal Fortes de Sá Jr responde: Como disse, acredito em interatividade e em cross midia. A Internet entra nesse quadro como mais um canal de comunicação, que a Band tenta usar o melhor possível. Aqui em Curitiba estamos investindo no www.blogdacidade.com.br, que é uma continuação do Cidade Revista, jornal das 12h30. Nós da equipe, a Aline Nunes, a Ana Paula Burg e eu achamos que as pessoas estão participando. E que a expansão do blog vai caminhar junto com a expansão da banda larga, que ainda é privilégio de poucos.
[15:57:09] - Beatriz Moraes (Correspondente - Comunique-se - RJ) pergunta para Adherbal Fortes de Sá Jr: Adherbal, essa pergunta vou colocar agora pra você responder por último: passa pra gente a receita da tua energia. Com 40 anos de jornalismo, você continua se reciclando, ligado nas novidades (por ex, agora blogando), sempre antenado. Tem jornalista que, com o passar dos anos, vai ficando mal-humorado, cansado. Fala aí como é que faz pra se manter plugado na tomada.
Adherbal Fortes de Sá Jr responde: Há 40 anos acredito no jornalismo como um jeito - provavelmente o melhor, certamente o mais divertido - de melhorar o mundo. |