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Boa parte das 400 pessoas que lotaram o auditório do jornal O Globo para assistir à pré-estréia de “Tropa de Elite†na quinta-feira (27/09) não permaneceu no local após a exibição para participar do debate com José Padilha, diretor do filme, e outros convidados. Talvez porque nas últimas semanas a imprensa cultural – e policial – promoveu várias discussões sobre a história do capitão Nascimento. Estiveram na mesa, também: Luiz Eduardo Soares, um dos escritores de “Elite da Tropaâ€, o jornalista Paulo Motta, da editoria Rio do Globo, o coronel da PolÃcia Militar Ubiratan Ângelo e o sociólogo Michel Misse.
“Tropa de Elite†é um filme que entra na história do cinema nacional. Não apenas por encarar os problemas da polÃcia de frente, mas também por ser um caso emblemático de como a distribuição cinematográfica é fraca diante da pirataria e da internet. Mas isso tudo fica de lado diante das discussões que surgiram na mÃdia.
Público O Globo estampou em sua primeira página opiniões divergentes sobre o filme. O jornalista Artur Xexéo chegou a criticar a atitude do público “que aplaude cada tortura em traficante, cada morteâ€. Padilha, entretanto, contestou a afirmação lembrando que aquela era a terceira vez que seu filme era exibido. “No Festival do Rio, pessoas da equipe estavam na pré-estréia e não glorificaram a cena, mas a dificuldade delas. Não vou fazer com o meu público o que a crÃtica fezâ€, declarou, se referindo à polêmica do filme e descartando colocar “etiquetas que não dão conta da complexidadeâ€.
Não é novidade que coberturas e pessoas criem simplificações e rótulos. Além da forma como algumas matérias julgaram as reações ao filme, Padilha chegou a ser taxado de “um radical de direita†pela história. Curiosamente, “Ônibus 174â€, sobre o seqüestrador Sandro do Nascimento, taxou o diretor de “um radical de esquerdaâ€. Em comum, os dois filmes contam a história de dois “Nascimentosâ€, vÃtimas e protagonistas do sistema de repressão do Estado.
Saia justa Em dois momentos, o debate teve saias justas que foram contornadas pelos debatedores. Em resposta a uma pessoa do público que ironizava os comentários do coronel Ubiratan e fazia alusão ao “caveirão†(carro blindado usado pelo Batalhão de Operações Especiais), Soares lembrou que crÃticas contra autoridades “poderiam atingir quem está lá para nos defenderâ€.
O coronel também não conseguiu responder diretamente ao comentário de Padilha quando afirmou que os policiais viram no filme o Bope como uma “reserva técnica e moral da polÃciaâ€. O diretor lembrou que, enquanto o Batalhão torturava, o restante da polÃcia seria corrupta. “Na minha escala de valores, tortura é pior do que corrupçãoâ€. Ubiratan preferiu rebater que essa visão era dentro de uma obra de ficção.
Talvez nas próximas semanas, a mÃdia discuta se essa escala de valores é a mesma em todas as classes sociais. A favela e a classe média vêem a tortura ou a corrupção como o pior valor? De um jeito ou de outro, com a estréia marcada apenas para o próximo mês, “Tropa de Elite†ainda levará um bom tempo para se transformar em notÃcia velha. |